Poucas pessoas compreendem o perigo da dengue de forma tão pessoal quanto alguém que já passou por isso. Alicia Lurdes Bravo Yupanqui — delegada comunitária e estudante de Direito em Comas, no norte de Lima — contraiu a doença há anos e nunca mais a esqueceu. Agora, ela recorre a essa experiência para ajudar seus vizinhos a levar a dengue a sério e a compreender uma nova ferramenta ainda desconhecida na luta contra a doença: World Mosquito ProgramWolbachia . Por meio de conversas pacientes em parques e cozinhas comunitárias, ela está transformando curiosidade e dúvida na confiança que faz uma estratégia de saúde pública funcionar. Sua história mostra como sobreviver a uma doença pode se tornar um motivo para proteger toda uma comunidade.
"Às vezes, as pessoas ouvem a palavra 'dengue' e acham que não é nada, mas ela pode deixar você muito doente — ou até mesmo matar você."
No distrito de Comas, na zona norte de Lima, no Peru, as organizações de bairro fazem parte do dia a dia. Parques, reuniões comunitárias e espaços públicos costumam se tornar locais onde os moradores trocam informações, discutem os desafios locais e trabalham juntos para encontrar soluções que beneficiem seus bairros.
Na Zona 6, uma das pessoas que assumiu essa função é Alicia Lurdes Bravo Yupanqui, delegada comunitária e estudante de Direito na Universidade César Vallejo. Em seu tempo livre, ela gosta de jogar vôlei e participar de atividades comunitárias, mas o que realmente a motiva é o seu compromisso com os vizinhos. “O que mais me motiva é zelar pelo bem comum da nossa comunidade e ver mudanças positivas no meu país”, disse ela.
Seu interesse pela saúde comunitária, no entanto, não se deveu apenas ao seu papel de liderança. Ele foi moldado por uma experiência pessoal que marcou profundamente sua vida. Há vários anos, Alicia morava em Piura, uma região do norte do Peru onde surtos de dengue ocorrem com frequência durante a estação chuvosa. Assim como em Comas, a água da chuva costuma se acumular em recipientes e tanques de armazenamento doméstico, criando locais ideais para a reprodução do Aedes aegypti , que transmite a dengue.
Dor incapacitante da dengue
Foi lá que Alicia adoeceu. “Comecei a sentir dores de cabeça, dor atrás dos olhos e febre”, lembra ela. Os médicos logo confirmaram o diagnóstico: dengue. Os dias que se seguiram foram marcados por mal-estar físico e preocupação. “Era uma dor forte no corpo. Você não consegue comer nada, sente náuseas… aqueles dias pareciam intermináveis”, acrescenta ela.
Enquanto se recuperava, Alicia também testemunhou o impacto que a dengue poderia causar em outras famílias ao seu redor. Ela se lembra do caso de uma amiga próxima cujo filho quase morreu de dengue grave. Essa experiência mudou para sempre a maneira como ela via o mosquito responsável pela transmissão da doença. “Sempre que via um mosquito, tentava me livrar dele”, disse ela, com um claro senso de seriedade em relação à proteção de sua família.
A dengue, uma ameaça crescente à saúde pública no Peru
Com o tempo, Alicia percebeu que a dengue não é um problema que possa ser resolvido dentro de uma única família. É um desafio que afeta comunidades inteiras. Nos últimos anos, a dengue tornou-se uma das preocupações mais urgentes em matéria de saúde pública no Peru, com milhares de casos registrados em todo o país e uma presença cada vez maior do mosquito, Aedes aegypti, em áreas urbanas densamente povoadas, como o norte de Lima. Em bairros como Comas, o mosquito frequentemente encontra criadouros em água parada acumulada em recipientes, resíduos e pequenas áreas de armazenamento doméstico.
Quando Alicia voltou para Comas e assumiu seu cargo de delegada comunitária, começou a conversar com seus vizinhos sobre a dengue. Em reuniões comunitárias, encontros sociais e conversas do dia a dia, ela lembrava às pessoas que a doença não deve ser subestimada. “Às vezes, as pessoas ouvem falar em dengue e acham que não é nada”, explicou ela. “Mas ela pode deixar você muito doente — ou até mesmo matar.”
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Uma estratégia inovadora para ajudar a combater a dengue
Foi nessa época que Alicia ouviu pela primeira vez uma palavra que lhe soou estranha: Wolbachia. “No começo, parecia um nome estranho, algo que não fazia muito sentido”, lembrou ela. Mas sua curiosidade e seu compromisso com a comunidade a levaram a querer saber mais.
Pouco tempo depois, Alicia e outros líderes comunitários foram convidados para uma reunião na Prefeitura de Comas. Lá, especialistas do Ministério da Saúde do Peru, da DIRIS Lima Norte e da Rede Integrada de Saúde (RIS) local apresentaram uma estratégia inovadora para ajudar no combate à dengue: a soltura de mosquitos portadores da bactéria Wolbachia, que ocorre naturalmente e reduz a capacidade do mosquito de transmitir vírus como o da dengue, do zika e da chikungunya.
As evidências por trás do Wolbachia
Durante essa reunião, Alicia ficou sabendo que a estratégia era respaldada por anos de pesquisa e experiências internacionais bem-sucedidas. Um ensaio clínico randomizado de referência realizado em Yogyakarta, na Indonésia, demonstrou uma redução de 77% na incidência de dengue e uma redução de 86% nas hospitalizações por dengue nas áreas Wolbachia, em comparação com as áreas não tratadas. O Ministério da Saúde do Peru autorizou oficialmente sua implementação por meio da Resolução Ministerial nº 485-2025-MINSA, no âmbito do Plano de Implementação e Avaliação da Wolbachia para o Controle da Dengue em Cenários Priorizados 2025–2027. A resolução apoia o uso da Wolbachia método biológico complementar para o controle da dengue no país.
Construindo a confiança da comunidade por meio do diálogo
Quando Alicia começou a compartilhar essas informações com seus vizinhos, logo surgiram perguntas. Muitos nunca tinham ouvido falar Wolbachia . “Quando mencionei o nome, as pessoas perguntaram imediatamente: ‘O que é isso?’”, lembrou ela, rindo. Alguns vizinhos chegaram a imaginar explicações completamente diferentes sobre como a estratégia funcionava. Mas, para Alicia, essas perguntas eram uma parte natural do processo. Como líder comunitária, ela compreendia que a confiança se constrói por meio de informações claras e de um diálogo aberto.
Em vez de se deixar desanimar pelas dúvidas iniciais, Alicia fez o que sabe fazer de melhor como líder comunitária: ouvir, dialogar e organizar. Juntamente com o presidente da zona e com o apoio de especialistas em saúde do Wolbachia do Ministério da Saúde, ela começou a organizar reuniões em parques, cozinhas comunitárias e outros espaços do bairro para explicar como a estratégia funciona. O objetivo era simples: garantir que todos os vizinhos compreendessem a iniciativa e pudessem compartilhar essas informações com seus familiares e outras pessoas da comunidade.
Durante esse processo, eles também conheceram experiências de outros países onde a Wolbachia já havia sido implementada, incluindo El Salvador, onde comunidades semelhantes às suas haviam aceitado o método como uma forma eficaz de combater a dengue. Para Alicia, conhecer essas experiências ajudou a fortalecer a confiança da comunidade e reforçou a ideia de que a informação e a organização comunitária são essenciais no combate à doença.
Esperança para o controle da dengue no Peru
Hoje, Alicia encara o projeto com esperança. Ela acredita que, se as comunidades compreenderem a estratégia e participarem ativamente, aceitarão iniciativas como Wolbachia podem fazer uma diferença real na luta contra a dengue. “Acredito que o impacto que isso terá no meu querido Peru trará resultados positivos”, disse ela. “E que seremos capazes de controlar a dengue sem que haja perda de vidas.”

